A expectativa de retorno financeiro com IA agêntica está escalando rápido entre as empresas brasileiras. Segundo o estudo The Value of AI: Brazil 2026, realizado pela SAP em parceria com a Oxford Economics, as empresas nacionais projetam 15% de ROI em agentes de IA nos próximos dois anos (até 2028), o equivalente a US$ 24,8 milhões. A cifra cresceu mais de quatro vezes em relação ao levantamento anterior, de US$ 3,8 milhões, publicado em 2025.
A pesquisa ouviu 2.600 líderes de negócios em 13 países, incluindo 200 respondentes no Brasil. No recorte brasileiro, os dados mostram aumento no uso, no investimento e no retorno obtido com inteligência artificial.
As empresas brasileiras devem investir, em média, US$ 20,8 milhões em IA neste ano, frente a US$ 14,2 milhões no levantamento anterior. E a expectativa é de que o montante continue subindo em ritmo cada vez mais acelerado nos próximos dois anos, crescendo 46% ante 36% na pesquisa anterior.
Rui Botelho, CEO da SAP Brasil, explica que o sentimento positivo está fortemente atrelado aos resultados que as empresas vêm registrando. “O ROI médio subiu de 16% para 19% em um ano, chegando a US$ 5,5 milhões. Até 2028, deve avançar para 38%, gerando retorno de US$ 13,6 milhões”, aponta. “Os dados mostram que as empresas brasileiras avançaram da fase de testes e estão começando a escalar aplicações de IA com sucesso, de forma conectada ao contexto do negócio”, completa.
No Brasil, 77% das empresas afirmam que agentes de IA têm potencial moderado a alto para transformar suas organizações e 55% já pilotaram casos de uso com essa tecnologia. No total, 64% das empresas dizem estar satisfeitas com o ROI em IA em geral (não apenas IA agêntica). No entanto, 65% não estão convencidas de que suas implementações entregam todo o potencial da tecnologia e apenas 3% se dizem totalmente preparadas para implementar e escalar agentes de IA.
Entre as empresas que já experimentam ou usam IA agêntica, todas relataram ao menos um desafio na adoção. Os principais são: esforço de integração maior do que o esperado (61%); aumento de problemas de confiabilidade ou qualidade conforme o uso escala (54%); resultados inconsistentes entre equipes ou regiões para o mesmo processo (45%); agentes tomando ações incorretas (40%); e, dificuldade de reproduzir ou depurar o comportamento dos agentes (39%).
Avanço ainda é fragmentado
Hoje, 26% das tarefas nas empresas brasileiras já são apoiadas por IA, percentual que deve chegar a 44% em dois anos. Contudo, a maior parte dos processos não conversam entre si. A pesquisa da SAP revela que houve avanço, mas abordagem para adoção de IA só é feita de forma estratégica e integrada em 18% dos casos – no ano passado, apenas 6% das empresas adotavam um olhar holístico para este processo. O modelo mais comum continua sendo a adoção por projeto, citada por 48% das empresas.
Dados, capacitação e governança ainda limitam a geração de valor com IA. A qualidade ou disponibilidade dos dados é citada por 75% das organizações como fator que impede maior retorno. Além disso, 65% apontam falta de habilidades ou conhecimento especializado.
A prontidão de dados caiu em relação ao ano anterior: 56% das empresas brasileiras afirmam estar prontas em dados para IA, ante 68% no levantamento anterior. “Os números demonstram, na verdade, maior entendimento das empresas sobre seu estágio atual e como operar a tecnologia. Ou seja, o ajuste é mais uma correção com base na realidade em operação do que uma piora factual”, analisa Botelho. A avaliação é corroborada pelos números: 80% das empresas relatam ter enfrentado saídas de baixa qualidade geradas por IA ao menos ocasionalmente, causando retrabalho, atrasos ou acúmulo de demandas; e 78% dizem ter adaptado o trabalho do dia a dia por causa desses resultados.
Outra vulnerabilidade detectada é o uso de ferramentas não aprovadas de IA, a chamada shadow AI. De acordo com o relatório, 82% das empresas brasileiras afirmam que colaboradores usam ferramentas de IA de terceiros sem aprovação ou supervisão formal ao menos ocasionalmente. O que tem gerado impactos nocivos aos negócios: 50% relatam resultados inconsistentes ou imprecisos, 43% apontam vazamento de dados ou exposição de propriedade intelectual, 32% citam vulnerabilidades de segurança e 31% mencionam violações de compliance.
Não à toa, 77% das empresas brasileiras não estão convencidas de que seus programas de capacitação acompanham a evolução das ferramentas de IA. Ao mesmo tempo, menos de 1% dos respondentes dizem que a IA não terá impacto no planejamento de força de trabalho.
Se a necessidade de estabelecer uma governança está nítida, o processo está longe do ideal. Apenas 12% das empresas brasileiras dizem que suas habilidades estão totalmente prontas para governar IA, e 15% afirmam que seus processos e frameworks estão preparados. Hoje, 35% das empresas brasileiras não têm processos de human-in-the-loop para fluxos com agentes; 29% não possuem controles de permissão e acesso para esses agentes; e 50% mantêm um registro formal dos agentes utilizados no negócio. Além disso, 65% das companhias não sabem dizer se estão implementando agentes mais rápido do que conseguem padronizá-los e governá-los.
Para a SAP, o avanço da IA agêntica exige uma abordagem que conecte agentes, dados, processos e pessoas em uma mesma lógica operacional. Não basta aplicar IA a processos isolados. A tecnologia precisa de contexto para orientar decisões e de governança para operar em escala.
“Gerar valor com IA exige uma nova abordagem. Não se trata apenas de adotar ferramentas, mas de conectar inteligência artificial aos dados e processos que movem o negócio. Empresas brasileiras, de diferentes portes, precisarão construir esse caminho com contexto e governança. É essa combinação que permite avançar em direção ao que chamamos de empresa autônoma”, conclui Botelho.


